Giselle Marques pede criação de políticas públicas para negros e mulheres


A professora Giselle Marques, militante do movimento negro, ocupou a tribuna da Assembleia Legislativa para pedir políticas públicas voltadas aos negros. O discurso em alusão ao Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, foi feito no intervalo da sessão desta quinta-feira (2). A fala foi marcada por um contundente alerta sobre as situações de violência e opressão que esta parcela da população sofre em Santa Catarina.

“Peço que todas as análises, pesquisas, estatísticas que embasam a Alesc para poder pensar políticas públicas tenham, além do recorte de gênero e classe, também o racial”, disse Gisele, que é membro do Fórum Setorial de Cultura Negra de Florianópolis, do Coletivo Pretas em Desterro e coordenadora do Fórum da Mulher Negra Sideropolitana. “Precisamos entender que os humanos estão divididos em grupos sociais: mulheres, negros, indígenas, LGBTI+, pessoas com deficiências. E cada grupo social tem suas demandas específicas, suas necessidades. E para pensar política pública nós precisamos saber desses recortes”, argumentou.

A professora, que ocupou o espaço a convite da Bancada Feminina da Alesc, solicitou ainda uma campanha antirracismo no sistema único de saúde (SUS). “Pois mulheres negras também são as que mais sofrem violência obstétrica, são as que mais morrem por falta de anestesia”, lamentou. Ela destacou ainda a necessidade de capacitação da polícia para que as abordagens feitas em relação à população negra e periférica sejam mais humanizadas. “Como professora que sou, também recebo relatos de crianças que contam que maioria dos policiais invadem suas casas, nos morros, periferias, com chutes, tapas na cara, sem considerar ao menos a presença dessas crianças. Recebo também relatos de mulheres que moram nos morros, nas vielas, e muitas vezes perdem o horário do ônibus pela abordagem agressiva e truculenta da polícia. Eu pergunto algo que já sei, será que nos condomínios de luxo, numa verificação de denúncia, é esta mesma abordagem?”, destacou. Sobre esse tema, ela pediu a criação de delegacias especializadas no atendimento de casos de racismo.

Outras reivindicações apresentadas envolveram a criação de restaurantes populares destinados às pessoas em situação de rua. “Nem todos estão na rua porque querem”, citou, antes de pedir que os editais de arte e cultura também tenham recorte racial.

Política da morte
Giselle foi enfática ao tratar do racismo. “Nosso estado está em um ranking vergonhoso como primeiro lugar de denúncias sobre injúria racial. Se pensarmos nos números de todas as mulheres que morreram, que foram assassinadas no Brasil, 75% delas são negras. E fazendo o recorte para Santa Catarina, mulheres negras são quatro vezes mais assassinadas do que mulheres brancas”, denunciou. De acordo com ela, os movimentos negros e dados acadêmicos asseguram que esses números podem ser ainda maiores por todo o cenário de migração e imigração no estado.

“Essas violências não são isoladas. É a necropolítica, a política da morte. É um planejamento de Estado. Precisamos entender que é uma cadeia, é uma engenharia de violências”, afirmou. Gisele citou a pesquisadora Adriana Dias, que constatou que no Estado de Santa Catarina tem 19 células neonazistas. “E das três organizações que pregam a supremacia racial, incluindo a Ku Klux Klan, movimento nascido nos Estados Unidos que tem como objetivo principal a morte de pessoas negras, duas estão em Santa Catarina”, garantiu.

A professora alertou aos homens presentes na sessão que os movimentos extremistas não são só racistas. “São LGBTfóbicos, sexistas, machistas. Suas mulheres, mães, irmãs e primas também podem ser vítimas destes movimentos”, avaliou. Outra crítica feita por ela tratou das diferenças financeiras entre gêneros. “Nosso estado está em terceiro lugar com o maior abismo salarial entre homens e mulheres. Sendo que, entre esse abismo, a população negra está na base da pirâmide e as mulheres negras são as que menos ganham, porém são as que mais estão ali sustentando suas famílias, porque 49% das mulheres negras brasileiras estão à frente das suas famílias. Não estou fazendo juízo de valor, mas precisamos fazer o recorte racial neste estado”, concluiu.

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