Professora de Espanhol da rede municipal de Florianópolis fala sobre combate ao racismo em evento internacional


Para falar de práticas antirracistas na rede municipal de ensino de Florianópolis, a professora Janete Elenice Jorge foi convidada para ministrar uma palestra organizada pelo Instituto de Cultura Uruguayo-Brasileño, com sede em Montevidéu.

 A videoconferência “Por uma educação antirracista: um relato de enfrentamento ao racismo no espaço escolar” será realizada pela plataforma zoom nesta quarta-feira, dia 5 de maio, às 18h30. A participação é gratuita. A palestra será proferida em português.  Basta acessar o link: https://us02web.zoom.us/j/89365553744

 A professora é doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui graduação em Letras e Literaturas de Língua Espanhola. Ela apresentará três práticas pedagógicas.

 A primeira foi realizada com estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA). A segunda é uma ação pedagógica com estudantes negros do ensino fundamental e suas famílias e a terceira é sobre a campanha Por uma Educação Antirracista promovida neste ano pela Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis.

 A respeito da campanha da SME, o diretor do Instituto de Cultura Uruguayo-Brasileño, Rafael de Caneda Lopez, manifestou-se: “Muito bem-feita. A qualidade das imagens, as fotos, as mensagens. Eu não estou exagerando, essa campanha deveria ser adotada em todo o Brasil”.

 Para Janete Elenice, a escola é um espaço plural, que trabalha para formação integral de sujeitos diversos e, talvez seu maior desafio, esteja em reconhecer essas diferenças e certificar-se que todas elas serão atendidas no espaço educativo de acordo com suas especificidades.

 No Brasil o racismo se reinventa cotidianamente mostrando em dados estatísticos realidades muito cruéis.

 O último Mapa da Violência publicado no final do ano de 2020, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mostra que na última década as desigualdades raciais se aprofundaram ainda mais.  Atualmente os negros são 64% da população carcerária, 76% dos mais pobres e a grande maioria das vítimas de homicídio.

 Ainda, segundo pesquisa feita pelo Atlas Político de 2020, 90,6% dos entrevistados no Brasil reconhecem a existência do racismo no país, quase 6% não reconhecem e 3,6% não sabem responder, quase ninguém se diz racista (97,5%).

 Diante desse contexto, “acreditamos ser urgente a implementação de políticas públicas de combate às desigualdades, como também pensar as políticas educacionais, através de práticas pedagógicas que busquem a função social da escola, para dar voz aos sujeitos que são invisibilizados pela sociedade”, diz a professora.

Racismo e desigualdades raciais

 

 

No ano de 2016 quando era coordenadora do Núcleo de Educação de Jovens, Adultos e Idosos – EJA Sul I, na comunidade da Costeira de Pirajubaé, a professora coordenou a ação pedagógica “A pesquisa e a leitura como princípios educativos no primeiro segmento”.

 

 

 Por intermédio da pergunta “Quem somos nós?” os estudantes foram estimulados a levantarem questionamentos sobre a ideia de identidade coletiva e a elaborar perguntas a partir de suas realidades.

 As temáticas do racismo e desigualdades sociais foram propostas pelos estudantes, o trabalho que envolveu adultos em processo de alfabetização teve um grande impacto na comunidade escolar, levando os estudantes a se apresentarem no Encontro Internacional de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos (ALFAeEJA) realizado na Universidade Federal de Santa Catarina.

 A professora Janete relata que “estimular o protagonismo dos estudantes na ação pedagógica, escutá-los enquanto sujeitos que experimentam diariamente situações racistas e de exclusão social, promover espaços de autoria e construção coletiva, foram medidas fundamentais para o sucesso da proposta”.

Negro é lindo!

 

 

No ano de 2019 a professora Janete Elenice Jorge, juntamente com a bibliotecária Sandra Regina Fontes, em colaboração com a mestranda em Educação Gieri Toledo Alves e a maquiadora Isadora Carlos e Souza, realizou o projeto “Beleza Negra na Escola: Promovendo a Diversidade”, na Escola Básica Municipal Osvaldo Galupo, no Morro do Horácio.

 A ação pedagógica resultou em um ensaio fotográfico com as famílias e estudantes negros com o objetivo de dar visibilidade à beleza negra e promover a autoestima da comunidade.

 “Em uma sociedade em que muitas vezes o corpo negro é desumanizado e repugnado é preciso discutir os padrões de beleza impostos que, além de segregar, causam dores físicas e emocionais irreparáveis”, diz Janete.

 A professora ainda aponta que o combate ao racismo deve estar presente nas práticas pedagógicas diárias. Para ela, a Educação das Relações Étnicos-raciais não deve ser somente um tema de novembro, mês da Consciência Negra, bem como é preciso tomar cuidado para não tratar o assunto a partir de estereótipos.

 Sobre seu trabalho com a Erer a professora relata: “sei que minha voz não tem a força da vivência de uma mulher negra que luta pela causa, porque não é meu lugar de fala, mas conheço muito bem os meus privilégios no espaço em que ocupo como mulher branca com doutorado e, por isso, preciso falar a partir do meu lugar”.

 Janete Elenice continua: “Eu nunca tive que me preocupar como seria tratada por ser uma mulher branca em uma aula da pós-graduação, em abrir a minha bolsa para guardar meu celular dentro de um estabelecimento comercial ou se minha aparência poderia interferir em uma seleção de trabalho, a cor da minha pele nunca dificultou a minha caminhada ou me fechou portas. É necessário também discutir o racismo sob a perspectiva do privilégio branco”.

Não basta não ser racista

 

 

A Secretaria Municipal de Educação organizou uma campanha ilustrada por artes com fotografias de estudantes. Os adultos são do Núcleo EJA Sul I, da Costeira do Pirajubaé.

 Crianças, com os pais, são da Escola Básica Municipal Osvaldo Galupo, no Morro do Horácio, com cliques datados do ano de 2019 pela professora Janete Elenice Jorge.

 

 

 Dados sobre a situação do negro e mensagens expressas por músicos fizeram parte da campanha.  Como os trechos da canção do grupo Fundo de Quintal: “Um sorriso negro/Um abraço negro/Traz felicidade/Negro sem emprego/Fica sem sossego/Negro é a raiz de liberdade”; e do artista Criolo: “Eu tenho orgulho da minha cor/Do meu cabelo e do meu nariz/Sou assim e sou feliz/ Índio, caboclo, cafuso, criolo/Sou brasileiro”.

 

 

 A escritora e filósofa Norte-americana Angela Davis desabafou: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

 Nelson Mandela, o maior líder da África negra, ressaltava: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por sua cor da pele, sua origem ou sua religião. / As pessoas podem aprender a odiar e, se podem aprender a odiar, pode-se ensiná-las a aprender a amar”.

 Para a professora Janete Elenice “discutir a temática com estudantes e comunidade do país vizinho é mais uma oportunidade de chamar a atenção para o fato de que, mesmo tendo uma cultura diversa, formada pela mistura de diferentes etnias, religiões, culinária e culturas, ainda prevalece no Brasil um Elitismo Cultural e um Etnocentrismo Racista que se arrastam desde a colonização e contribuem para a manutenção das desigualdades sociais que privilegiam etnias, classes sociais e regiões, mantendo historicamente grupos humanos à margem”. A professora ainda acrescenta que “A sociedade brasileira se formou através de uma falsa ideia de democracia racial, a partir de um conjunto de práticas históricas, culturais, institucionais e interpessoais que privilegiam uma raça em detrimento de outras, e isso é Racismo Estrutural, o que nos faz pensar que a imagem vendida lá fora do Brasil como um país miscigenado, alegre, aberto as diversidades é bastante questionável”.

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